O fenómeno de «crowding» nas praias portuguesas
Mês de Julho tem vindo a ser altura de ir de férias segundo a filosofia do “Vá para fora cá dentro”, sobretudo agora que a presença de um novo membro na família torna mais difíceis as viagens para fora, logisticamente complexas. É sempre um período de relaxe, de reaproximação e de intimidades redescobertas. Um verdadeiro elixir de juventude!
Nos últimos anos o local de eleição tem sido Vilamoura, no Algarve. Não por ser um local particularmente atractivo ou de maravilhas escondidas e vistas gloriosas, mas sobretudo porque é lá que existe o apartamento que os meus Pais compraram há uns anos, pensando em ter um pouso onde pudessem de vez quando assentar para ir a banhos - de sol e água!
E assim se passam 2 semanas magníficas: carro parado e estacionado na garagem, com utilização esporádica, praia a 5 minutos a pé de casa, passeios nocturnos pela marina, refeições simplificadas, sestas a seguir ao almoço, etc, etc, etc.
As idas à praia, no entanto, não deixam de ter o seu quê de stressante. São também uma boa oportunidade para observar comportamentos alheios e tentar perceber um pouco melhor a cultura e civilidade dos nossos vizinhos e concidadãos. E este ano, não sei porquê, apesar de alguma distância da época alta, a praia registou enchentes a que em anos anteriores não tinha assistido nesta altura do ano. E daí o título deste post: o fenómeno do Crowding nas nossas praias.
A praia que costumo frequentar é uma tira de areia com uns 30 metros de largura na maré alta, talvez um pouco mais. Costumo chegar cedo, antes das 10, e a essa hora nunca se coloca o problema do espaço, visto haver ainda pouca gente. À medida que a manhã vai avançando vão chegando cada vez mais pessoas, sobretudo famílias, algumas vezes numerosas. E para mal dos meus pecados, à medida que vão chegando, vão ocupando as manchas livres, cada vez mais perto uns dos outros, até que se forma uma amálgama de gente, tornando-se difícil distinguir onde acaba a “zona de influência” da família do chapéu com publicidade à Super Bock e a dos camones com um chapeu às cornucópias, provavelmente alugado (ou comprado por meia dúzia de €€€ros no Lidl mais próximo…).
E tudo isto numa pequena tira de 10-15 metros, junto ao mar, próximo do limite da maré cheia. Fica assim a praia com uma fatia paralela à linha de costa, com uns 15-20 metros, com areia seca e soltinha, vazia de gente, ocasionalmente ocupada por tenistas de ocasião ou futeboleiros de praia. E na outra fatia, geralmente mais estreita, acumulam-se as centenas (milhares?) de pessoas, contrariando toda a lógica da boa distribuição dos espaços e do respeito pelas zonas de privacidade e intimidade dos outros, tornando o trajecto dos vendedores de Bolas de Berlim uma autêntica gincana!
Aqui há uns anos havia um anúncio na TV, se bem me lembro, ao Renault Espace, em que se viam várias cenas de multidões em movimento, com uma pequena zona desocupada algures, no centro da qual se via uma pessoa só. A ideia que se transmitia era a de que necessitamos de espaço. Esse anúncio apelava à minha sensibilidade de forma significativa.
O que será que faz as pessoas agir desta forma irracional? O que provocará esta ausência de necessidade de espaço de intimidade existindo tanto espaço disponível à nossa volta? Ou será que sou eu que sou um bocado excêntrico?…