Archive for Julho, 2006

O Charly bebe whisky?

Num dos passeios pela marina de Vilamoura reparo num agente de segurança da empresa privada que garante (?) o bom funcionamento daquele local. O rapazola - um lingrinhas de meia tigela que nunca conseguiria assustar ninguém - falava para um walkie-talkie, aparentemente muito preocupado e com ânsia de resolver sabe-se lá que problema.

Ao passar por ele não resisto a ouvir o diálogo entre o agente e quem estava do outro lado:

“…e já verificaste se no Whisky Charly estava tudo ok?…”

24 Season one


24 - Season One

Quando esta série foi para o ar há uns anos atrás, despertou o meu interesse e ainda consegui ver os primeiros episódios, embora a espaços. Começou, no entanto, a tornar-se uma experiência frustrante, com os constantes chutos de horário que a série foi sofrendo, obrigando a uma “ginástica” de agenda que detesto, sobretudo quando o que está em causa é um programa de TV. Acabei por desistir de a seguir, pensando que um dia mais tarde teria possibilidade de arranjar em versão DVD.

Essa oportunidade surgiu agora nas férias, e acabei por ver em 6-7 dias os 24 episódios que compõem a priméria época. Na verdade, era difícil parar de ver, e a tendência era a de chegar ao final de um episódio e pôr logo a correr o seguinte! De tal modo que na primeira semana de férias andei (eu e a minha esposa) meio zombie, os motivos de conversa acabavam invariavelmente na acção, nos pequenos detalhes e na especulação sobre o que se seguiria.

Foi de tal modo que acabámos por decidir que apesar de termos pela frente mais uma semana de férias, e a segunda série disponível, deixá-la para outra altura, ou a recordação que teríamos das nossas férias de 2006 seria a das horas passadas em frente à TV a ver o 24…

Mas o que tem afinal a história assim de tão especial que a torna tão viciante? Claramente a forma como a acção decorre, supostamente em tempo real, com vários cenários a desenrolar-se em simultâneo, as várias histórias dentro da trama principal que aos poucos vão desembocar na mesma espinha comum, os constantes acontecimentos inesperados, os golpes e contra-golpes, as surpresas e decepções, as suposições e revelações que a toda a hora vêm ao de cima…

Eu dividiria a história em 3 blocos principais: a primeira parte decorre durante a madrugada, em que aos poucos vamos percebendo a existência de uma conspiração envolvendo o rapto da família do protagonista - Jack Bauer - e culminando com a tentativa de assassinato do potencial candidato presidencial. Na segunda parte, algures durante a manhã e princípio da tarde, assistimos ao esforço de Jack para encontrar e libertar a sua família. A terceira parte é o desmascarar da conspiração, e decorre no final da tarde e princípio da noite e tem o seu climax com o desmascarar do agente infiltrado que é instrumental no desenrolar da história.

Ao mesmo tempo vamos percebendo as pequenas histórias que envolvem os vários personagens e aprendemos a gostar de uns e a detestar os outros. Não só as que envolvem Jack, mas também as que dizem respeito ao senador Palmer e sua família. Quem não gostaria de ter um político como ele à frente dos nossos destinos?

Numa palavra: excelente!

Elixir da juventude


As férias são também uma altura em que aproveito para “brincar aos papagaios”, o meu hobby favorito nos últimos anos. Aí fica uma amostra.

Elixir é o nome do modelo do papagaio em questão.

Codex 632


O Codex 632
José Rodrigues dos Santos

O que dizer deste ensaio escrito em forma de romance? O que pensar no final sobre a questão em jogo: quem seria afinal Cristovão Colombo? Até onde é que este «ensaio» é real e a partir de que ponto é que estamos perante uma ficção? Até a forma como a história acaba nos deixa ainda mais pendurados nesta dúvida!

Mérito, sem dúvida, ao JRS, que consegue chegar ao final e deixar-nos na mente todas estas interrogações. O Codex é um livro que se lê lindamente, com algumas passagens um pouco mais difíceis, é certo, mas ainda assim, consegue manter o interesse e a expectativa ao longo de toda a narrativa.

Talvez o principal problema seja a repetição em que se acaba por cair com o constante apelo às mesmas fontes, ainda que por vezes para justificar acontecimentos diferentes, ou para explorar outros detalhes até aí não revelados. Mas acaba por se tornar um pouco cansativo, confesso, sobretudo na segunda metade do livro, em que essas referências e apelos se tornam quase maçadoras.

Quem estiver à espera de um Código DaVinci à portuguesa, esqueça, não tem nada a haver, embora existam de facto algumas coincidências. É que nem no estilo, nem na forma. O DaVinci é uma história de acção, cheia de puzzles e códigos para resolver. O Codex é uma narrativa, quase uma espécie de dissertação, com muito pouca acção, mas muita instrospecção.

Acho que um dos motivos mais interessantes para este livro é a possibilidade de captar um pouco da história do nosso País, naquela fase em que Portugal era uma grande potência mundial. Perceber os contornos políticos e estratégicos das decisões tomadas pelos governantes e aos poucos ir vendo um pouco mais para além daquela trivial ideia que nos vai sendo passada nas escolas sobre os Descobrimentos, visão naturalmente romanceada e habilmente construída para glorificar o nosso passado.

Sem dúvida uma das marcas mais interessantes é a caracterização do Tratado de Tordesilhas como a génese do actual fenómeno de Globalização. É rebuscado, mas não deixa de fazer um certo sentido.

Finalmente dizer que achei também uma ideia bastante interessante aproveitar esta história para chamar a atenção para as dificuldades e sofrimento dos Pais de crianças com deficiência mental (no caso sindroma de Down). Embora na história seja um detalhe sem o qual o livro viveria bem, é um gesto de civismo para nos fazer lembrar a todos que estas crianças têm de facto necessidades especiais.

Em resumo, um grande livro, uma excelente leitura, recomendado!

Férias em Agosto

O fenómeno de «crowding» nas praias portuguesas

Mês de Julho tem vindo a ser altura de ir de férias segundo a filosofia do “Vá para fora cá dentro”, sobretudo agora que a presença de um novo membro na família torna mais difíceis as viagens para fora, logisticamente complexas. É sempre um período de relaxe, de reaproximação e de intimidades redescobertas. Um verdadeiro elixir de juventude!

Nos últimos anos o local de eleição tem sido Vilamoura, no Algarve. Não por ser um local particularmente atractivo ou de maravilhas escondidas e vistas gloriosas, mas sobretudo porque é lá que existe o apartamento que os meus Pais compraram há uns anos, pensando em ter um pouso onde pudessem de vez quando assentar para ir a banhos - de sol e água!

E assim se passam 2 semanas magníficas: carro parado e estacionado na garagem, com utilização esporádica, praia a 5 minutos a pé de casa, passeios nocturnos pela marina, refeições simplificadas, sestas a seguir ao almoço, etc, etc, etc.

As idas à praia, no entanto, não deixam de ter o seu quê de stressante. São também uma boa oportunidade para observar comportamentos alheios e tentar perceber um pouco melhor a cultura e civilidade dos nossos vizinhos e concidadãos. E este ano, não sei porquê, apesar de alguma distância da época alta, a praia registou enchentes a que em anos anteriores não tinha assistido nesta altura do ano. E daí o título deste post: o fenómeno do Crowding nas nossas praias.

A praia que costumo frequentar é uma tira de areia com uns 30 metros de largura na maré alta, talvez um pouco mais. Costumo chegar cedo, antes das 10, e a essa hora nunca se coloca o problema do espaço, visto haver ainda pouca gente. À medida que a manhã vai avançando vão chegando cada vez mais pessoas, sobretudo famílias, algumas vezes numerosas. E para mal dos meus pecados, à medida que vão chegando, vão ocupando as manchas livres, cada vez mais perto uns dos outros, até que se forma uma amálgama de gente, tornando-se difícil distinguir onde acaba a “zona de influência” da família do chapéu com publicidade à Super Bock e a dos camones com um chapeu às cornucópias, provavelmente alugado (ou comprado por meia dúzia de €€€ros no Lidl mais próximo…).

E tudo isto numa pequena tira de 10-15 metros, junto ao mar, próximo do limite da maré cheia. Fica assim a praia com uma fatia paralela à linha de costa, com uns 15-20 metros, com areia seca e soltinha, vazia de gente, ocasionalmente ocupada por tenistas de ocasião ou futeboleiros de praia. E na outra fatia, geralmente mais estreita, acumulam-se as centenas (milhares?) de pessoas, contrariando toda a lógica da boa distribuição dos espaços e do respeito pelas zonas de privacidade e intimidade dos outros, tornando o trajecto dos vendedores de Bolas de Berlim uma autêntica gincana!

Aqui há uns anos havia um anúncio na TV, se bem me lembro, ao Renault Espace, em que se viam várias cenas de multidões em movimento, com uma pequena zona desocupada algures, no centro da qual se via uma pessoa só. A ideia que se transmitia era a de que necessitamos de espaço. Esse anúncio apelava à minha sensibilidade de forma significativa.

O que será que faz as pessoas agir desta forma irracional? O que provocará esta ausência de necessidade de espaço de intimidade existindo tanto espaço disponível à nossa volta? Ou será que sou eu que sou um bocado excêntrico?…